sexta-feira, 8 de maio de 2009

Os reflexos da crise mundial

Cinco horas da tarde. Na Praça Batista Campos, localizada no centro da cidade de Belém, um sujeito mal vestido caminha observando as árvores. Grandes árvores, por sinal. Sente o vento batendo no seu rosto e percebe que algumas pessoas estão caminhando, ou melhor, fazendo a atividade física diária. Seu olhar está longe, no pôr-do-sol, procurando a saída para um problema que está vivendo. Esse problema é a crise mundial. Foi a responsável pela sua demissão. Um excelente funcionário, com mais de 22 anos de empresa, agora andava lentamente pela praça. Não tinha o que fazer. Muitos o rotulavam de vagabundo.
Um outro sujeito também caminha. Comparando com o primeiro, podemos dizer que está mais bem vestido. Nada de terno e gravata, mas um sujeito bem mais apresentável. Camisa com manga impecavelmente passada, bermuda jeans ainda com perfume do amaciante, uma sandália de dedo e relógio de pulso. Nos pés, sandália que não era cara nem barata. Ele parecia estar mais preso á realidade. Seu olhar não tinha aquele desespero que podíamos observar no homem mal vestido. O que podemos ver em seu olhar é uma raiva, a fúria de alguém que procura, mas não acha o que deseja.
Os dois se encontram. Não por acaso, mas por iniciativa do homem que estava bem vestido. Assim, começaram a seguinte conversa:
- Boa tarde, como vai? – disse o homem bem vestido.
- O que? – perguntou o sujeito mal vestido e sem saber do se tratava.
- Estou querendo saber como está você?
- Por quê?
- Apenas por curiosidade.
- Por que esse interesse na minha vida?
- Sei lá, você parece estar desesperado. Se eu estiver correto, talvez possa ajudar.
- Realmente minha vida não está nada fácil. – disse o homem mal vestido que esboçava poucas lágrimas.
- Fique calmo. Tudo pode melhorar. Me diga qual é o seu nome. – em tom cordial, disse o sujeito bem vestido.
- Meu nome é Carlos. Desculpe pelo choro, mas é por que a situação anda difícil. E por falar em nome, qual é o seu?
- Meu nome é Antônio. Me diga qual o seu problema.
Antônio acompanhou Carlos até um banco da praça, onde os dois sentaram.
CARLOS: Perdi o emprego. Poxa, eu era um funcionário com 22 anos de empresa. Se sempre trabalhei com seriedade e eficiência, porque fui demitido? Por quê?
ANTONIO: Realmente é difícil de entender. Essa crise está ferrando todo mundo. Mas a situação vai mudar.
CARLOS: Mas quando? Eu só vejo notícia ruim. Ninguém sabe quando essa crise vai acabar.
ANTONIO: Vai melhorar, só não sei quando. E posso garantir que não é hoje.
CARLOS: E porque não seria hoje?
ANTONIO: Porque isso aqui é um assalto!
CARLOS: Eu também acho que a crise financeira mundial é como um assalto. Ela chega quando você menos espera e te ferra.
ANTONIO: Você está achando que eu sou palhaço.
CARLOS: Não, apenas concordo com sua comparação.
ANTONIO: Aqui não tem nenhuma comparação. Isso é um assalto mesmo. Não tente reagir. Qualquer movimento que fizer, eu te mato. Mato mesmo, na frente de todo mundo e sem pena.
CARLOS: Antonio, o que é isso? Você não iria me ajudar?
ANTONIO: Mas você é muito burro. Que assaltante daria seu nome de batismo? Seria muito fácil de localizar. E quem iria ajudar um homem mal vestido como você?
CARLOS: Pelo amor de Deus, não faça nada de mau comigo. Eu sei que eu estou ferrado, mas não piore minha situação.
ANTONIO: Eu não quero fazer nada de mau. Só quero que você passe tudo o que tem. Não demora e deixa de frescura.
CARLOS: Mas eu não tenho nada. O que você quer?
ANTONIO: Passa qualquer coisa.
CARLOS: Eu sou vítima da crise, não tenho nada.
ANTONIO: Nada?
CARLOS: Nada.
ANTONIO: Nada? Absolutamente nada?
CARLOS: Nada, porra! Será que além de burro é surdo?
ANTONIO: Me respeita. O assaltante sou eu e quem pode mandar aqui também sou eu.
CARLOS: Está bem. Erro meu. Foi mal.
ANTONIO: Mas nada? Carlos, você não tem nada?
CARLOS: Eu já falei, não tenho nada. Estou desempregado, na maior pindaíba. Estou quebrado.
ANTONIO: Quanto?
CARLOS: Cem por cento.
ANTONIO: Celular?
CARLOS: Tive que vender para comprar café para minha família.
ANTONIO: Relógio?
CARLOS: Já perdi noção do tempo e nem lembro quando foi.
ANTONIO: Jóias?
CARLOS: O único brilho que eu vejo vem das latinhas que coleto para vender. Apostei no ramo da reciclagem, mesmo parado.
ANTONIO: Algum dinheiro! Pelo menos isso você tem e pode me passar.
CARLOS: Não estaria assim se tivesse algum.
ANTONIO: Mas que merda. Não é possível. Como que alguém não tem nada?
CARLOS: É a crise. Culpa ela.
ANTONIO: Rapaz, essa crise ferra todo mundo. Acredita que meu rendimento diminuiu?
CARLOS: Sério?
ANTONIO: Nunca falei tão sério em toda minha vida. Essa crise afeta os dois lados, assaltantes e vítimas. Os dois lados devem sair favorecidos. Se a vítima não tem nada, o que vamos roubar? Essa crise deve acabar!
CARLOS: Também acho.
ANTONIO: Quanto mais trabalho, mais renda. Melhores celulares, jóias, roupas, carros, relógios e tênis. E o que isso quer dizer? Melhores coisas para roubarmos. ABAIXO A CRISE!
CARLOS: É... Faz sentido. Agora, posso ir? – perguntou desconfiado.
ANTONIO: Pode.
CARLOS: Não vai querer nada.
ANTONIO: Querer o que? Você não tem nada. Ah, e mais uma coisa...
CARLOS: O que?
ANTONIO: Aproveita e leva meu celular, relógio, sandália e cem reais. Toma. Vai embora.
CARLOS: Tem certeza?
ANTONIO: Tenho uma coleção de todos esses itens lá em casa. Não vai fazer falta. Ficar do seu lado me deixa deprimido. Vai embora, por favor.
CARLOS: Ok, não precisa humilhar.
ANTONIO: Pior do que você está não dá para ficar.
CARLOS: Não precisa humilhar.
ANTONIO: Vai.
CARLOS: Valeu.
ANTONIO: Crise safada! Ferrando todo mundo. Mas será possível, rapaz?


Gabriel Medeiros.

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