Cinco horas da tarde. Na Praça Batista Campos, localizada no centro da cidade de Belém, um sujeito mal vestido caminha observando as árvores. Grandes árvores, por sinal. Sente o vento batendo no seu rosto e percebe que algumas pessoas estão caminhando, ou melhor, fazendo a atividade física diária. Seu olhar está longe, no pôr-do-sol, procurando a saída para um problema que está vivendo. Esse problema é a crise mundial. Foi a responsável pela sua demissão. Um excelente funcionário, com mais de 22 anos de empresa, agora andava lentamente pela praça. Não tinha o que fazer. Muitos o rotulavam de vagabundo.
Um outro sujeito também caminha. Comparando com o primeiro, podemos dizer que está mais bem vestido. Nada de terno e gravata, mas um sujeito bem mais apresentável. Camisa com manga impecavelmente passada, bermuda jeans ainda com perfume do amaciante, uma sandália de dedo e relógio de pulso. Nos pés, sandália que não era cara nem barata. Ele parecia estar mais preso á realidade. Seu olhar não tinha aquele desespero que podíamos observar no homem mal vestido. O que podemos ver em seu olhar é uma raiva, a fúria de alguém que procura, mas não acha o que deseja.
Os dois se encontram. Não por acaso, mas por iniciativa do homem que estava bem vestido. Assim, começaram a seguinte conversa:
- Boa tarde, como vai? – disse o homem bem vestido.
- O que? – perguntou o sujeito mal vestido e sem saber do se tratava.
- Estou querendo saber como está você?
- Por quê?
- Apenas por curiosidade.
- Por que esse interesse na minha vida?
- Sei lá, você parece estar desesperado. Se eu estiver correto, talvez possa ajudar.
- Realmente minha vida não está nada fácil. – disse o homem mal vestido que esboçava poucas lágrimas.
- Fique calmo. Tudo pode melhorar. Me diga qual é o seu nome. – em tom cordial, disse o sujeito bem vestido.
- Meu nome é Carlos. Desculpe pelo choro, mas é por que a situação anda difícil. E por falar em nome, qual é o seu?
- Meu nome é Antônio. Me diga qual o seu problema.
Antônio acompanhou Carlos até um banco da praça, onde os dois sentaram.
CARLOS: Perdi o emprego. Poxa, eu era um funcionário com 22 anos de empresa. Se sempre trabalhei com seriedade e eficiência, porque fui demitido? Por quê?
ANTONIO: Realmente é difícil de entender. Essa crise está ferrando todo mundo. Mas a situação vai mudar.
CARLOS: Mas quando? Eu só vejo notícia ruim. Ninguém sabe quando essa crise vai acabar.
ANTONIO: Vai melhorar, só não sei quando. E posso garantir que não é hoje.
CARLOS: E porque não seria hoje?
ANTONIO: Porque isso aqui é um assalto!
CARLOS: Eu também acho que a crise financeira mundial é como um assalto. Ela chega quando você menos espera e te ferra.
ANTONIO: Você está achando que eu sou palhaço.
CARLOS: Não, apenas concordo com sua comparação.
ANTONIO: Aqui não tem nenhuma comparação. Isso é um assalto mesmo. Não tente reagir. Qualquer movimento que fizer, eu te mato. Mato mesmo, na frente de todo mundo e sem pena.
CARLOS: Antonio, o que é isso? Você não iria me ajudar?
ANTONIO: Mas você é muito burro. Que assaltante daria seu nome de batismo? Seria muito fácil de localizar. E quem iria ajudar um homem mal vestido como você?
CARLOS: Pelo amor de Deus, não faça nada de mau comigo. Eu sei que eu estou ferrado, mas não piore minha situação.
ANTONIO: Eu não quero fazer nada de mau. Só quero que você passe tudo o que tem. Não demora e deixa de frescura.
CARLOS: Mas eu não tenho nada. O que você quer?
ANTONIO: Passa qualquer coisa.
CARLOS: Eu sou vítima da crise, não tenho nada.
ANTONIO: Nada?
CARLOS: Nada.
ANTONIO: Nada? Absolutamente nada?
CARLOS: Nada, porra! Será que além de burro é surdo?
ANTONIO: Me respeita. O assaltante sou eu e quem pode mandar aqui também sou eu.
CARLOS: Está bem. Erro meu. Foi mal.
ANTONIO: Mas nada? Carlos, você não tem nada?
CARLOS: Eu já falei, não tenho nada. Estou desempregado, na maior pindaíba. Estou quebrado.
ANTONIO: Quanto?
CARLOS: Cem por cento.
ANTONIO: Celular?
CARLOS: Tive que vender para comprar café para minha família.
ANTONIO: Relógio?
CARLOS: Já perdi noção do tempo e nem lembro quando foi.
ANTONIO: Jóias?
CARLOS: O único brilho que eu vejo vem das latinhas que coleto para vender. Apostei no ramo da reciclagem, mesmo parado.
ANTONIO: Algum dinheiro! Pelo menos isso você tem e pode me passar.
CARLOS: Não estaria assim se tivesse algum.
ANTONIO: Mas que merda. Não é possível. Como que alguém não tem nada?
CARLOS: É a crise. Culpa ela.
ANTONIO: Rapaz, essa crise ferra todo mundo. Acredita que meu rendimento diminuiu?
CARLOS: Sério?
ANTONIO: Nunca falei tão sério em toda minha vida. Essa crise afeta os dois lados, assaltantes e vítimas. Os dois lados devem sair favorecidos. Se a vítima não tem nada, o que vamos roubar? Essa crise deve acabar!
CARLOS: Também acho.
ANTONIO: Quanto mais trabalho, mais renda. Melhores celulares, jóias, roupas, carros, relógios e tênis. E o que isso quer dizer? Melhores coisas para roubarmos. ABAIXO A CRISE!
CARLOS: É... Faz sentido. Agora, posso ir? – perguntou desconfiado.
ANTONIO: Pode.
CARLOS: Não vai querer nada.
ANTONIO: Querer o que? Você não tem nada. Ah, e mais uma coisa...
CARLOS: O que?
ANTONIO: Aproveita e leva meu celular, relógio, sandália e cem reais. Toma. Vai embora.
CARLOS: Tem certeza?
ANTONIO: Tenho uma coleção de todos esses itens lá em casa. Não vai fazer falta. Ficar do seu lado me deixa deprimido. Vai embora, por favor.
CARLOS: Ok, não precisa humilhar.
ANTONIO: Pior do que você está não dá para ficar.
CARLOS: Não precisa humilhar.
ANTONIO: Vai.
CARLOS: Valeu.
ANTONIO: Crise safada! Ferrando todo mundo. Mas será possível, rapaz?
Gabriel Medeiros.
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